Quarta-feira, 30 de setembro de 2026
Opinião e Arte

ANDANÇA: POR ONDE ANDA O AMOR?

Foto: Divulgação

Em 1968, Beth Carvalho emprestou sua voz a uma pergunta que, mais de meio século depois, parece continuar procurando resposta: por onde anda o amor? “Andança”, composição de Danilo Caymmi, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós, é de um tempo que não havia internet, redes sociais, aplicativos de relacionamento nem mensagens instantâneas. Havia estradas, partidas, esperanças, saudades e a esperança de encontrar alguém disposto a caminhar junto. Por isso a canção envelheceu tão pouco.

Sim, ela fala de caminhos, mas essencialmente fala de encontros. Sua estrada não é apenas aquela percorrida pelos pés. É a própria vida, com seus desvios, perdas, descobertas e recomeços. Porém, basta ouvir: “Cansei de ser sozinha” e diretamente ao século XXI. Afinal, nunca estivemos tão conectados; carregamos centenas de pessoas no bolso; conversamos com quem está do outro lado do mundo, colecionamos seguidores, curtidas e contatos. Mesmo assim, a solidão permanece.

Parecemos que multiplicamos as possibilidades de encontro sem aprender a permanecer e nos tornamos uma sociedade marcada pela velocidade, pelo consumo e pela substituição. Neste contexto, até os relacionamentos correm o risco de obedecer à lógica do cumprimento: enquanto satisfazem, permanecem; quando desativar esforço, diálogo ou paciência, procure-se outra possibilidade. “Andança” oferece uma imagem diferente. “Por onde for, quero ser seu par” , a frase, induz à continuidade. Não se trata apenas de encontrar alguém, mas de aceitar dividir o caminho.

Mas dividir o caminho não significa desaparecer dentro do outro. A própria canção responde: “Vou, sou mesmo assim.” E aí uma de suas maiores belezas que o amor não deveria exigir que alguém abandonasse sua para caber na vida de outra pessoa. Duas pessoas podem caminhar juntas sem que uma precise seguir exatamente as pegadas da outra. Afinal, amar não é possuído. Não é controlar. Tampouco transformar o outro em solução para nossas próprias ausências. Amar exige oferecer presença.

Porém, é preciso compreender que algumas estradas serão difíceis, que haverá discordâncias, mas que permanecer também pode ser uma escolha, não por dependência e sim porque aquela companhia tornou a caminhada mais significativa. “Andança ” falada de estrada, lua e rosas. Hoje talvez falasse de telas, mensagens e algoritmos. Mudaram os canais e não mudaram o coração humano. Continuamos procurando alguém que responda ao nosso desejo de companhia. A diferença é que, em tempos de tanta pressa, aprendemos a encontrar e desaprendemos de permanecer

Por isso “Andança” permanece ativa entre nós. Depois de tantas tecnologias, escolhas e atalhos, talvez a pergunta essencial continue sendo muito simples: por onde anda aquele amor que não apenas chega, mas que vem caminhar conosco?

Obrigado Beth Carvalho (1946-2019).

 

O autor:  Alberto Sousa Brito é contador, auditor, consultor, empresário e produtor rural, natural de Babaçulândia-GO, atualmente Tocantins. Graduado em Ciências Contábeis pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), em 1986, possui pós-graduação em Auditoria pela UNITINS, concluída em 2011.

Sua trajetória profissional inclui atuação como servidor público federal da UFES, gerente de empresas privadas e Secretário Municipal da Fazenda de Araguaína, entre 2013 e 2014. Nesse período, participou da modernização administrativa e da estruturação financeira do município, com a informatização integrada das secretarias e órgãos públicos, além da reforma do Código Tributário Municipal.

Desde 1994, é sócio-administrador da Acácio Assessoria Contábil, especializada em contabilidade e auditoria. Também atua na Acácio Participações Ltda., holding familiar com investimentos nos setores imobiliário, turístico e empresarial, incluindo participação no Lago Center Shopping de Araguaína. 

Na área acadêmica e estudantil, foi presidente do Centro Acadêmico de Ciências Contábeis da UFES e participou da organização do 1º Encontro Nacional dos Estudantes de Ciências Contábeis. 

No campo social, é membro do Rotary Clube de Araguaína desde 1998, tendo exercido a presidência do clube, o cargo de governador assistente e o de governador do Distrito 4530, no ano 2019-2020.