Quarta-feira, 14 de outubro de 2026
Policial

Operação da DEIC de Araguaína contra a corrupção mira quatro prefeitos e cumpre 70 mandados em 11 cidades do Tocantins

Investigação aponta suspeita de fraudes em licitações, pagamento de mais de R$ 4 milhões em propinas e lavagem de dinheiro

Foto: Divulgação

Quatro prefeitos em exercício, um ex-prefeito e dois presidentes de câmaras municipais estão entre os investigados pela Polícia Civil do Tocantins em uma operação de combate à corrupção deflagrada na manhã desta quarta-feira (14). Batizada de ÔM3GA, a ação cumpre 70 mandados de busca e apreensão em 11 municípios do estado para desarticular um suposto esquema de fraudes em contratos públicos, pagamento de propinas e lavagem de dinheiro.

Mais de 100 policiais civis participam da operação, coordenada pela 3ª Divisão Especializada de Repressão ao Crime Organizado de Araguaína (3ª DEIC). Ao todo, são 41 alvos, entre agentes políticos, advogados, contadores, empresários e servidores públicos. As ordens judiciais foram expedidas pelo Tribunal de Justiça do Tocantins (TJTO).

As buscas acontecem em prefeituras, câmaras municipais, escritórios de advocacia, empresas e residências de investigados nas cidades de Araguaína, Palmas, Ananás, Arapoema, Darcinópolis, Pau D'Arco, Pedro Afonso, Nova Olinda, Palmeirante, Colinas do Tocantins e Figueirópolis.

Além dos cinco prefeitos e ex-prefeitos, a investigação alcança sete advogados que atuam ou atuaram como procuradores municipais, quatro contadores, cinco empresários e outros envolvidos. Os nomes dos investigados não foram informados no material divulgado pela Polícia Civil.

Esquema teria começado com contratos de contabilidade

A investigação começou em 2024, após suspeitas de irregularidades em contratações públicas nas prefeituras de Nova Olinda e Darcinópolis. Com o avanço das apurações, os policiais encontraram indícios de que o grupo também atuava em outros nove municípios tocantinenses.

Segundo a 3ª DEIC, o esquema tinha dois núcleos principais. Um deles era comandado por sócios de um escritório de contabilidade. O outro seria formado por um casal proprietário de empresas que prestavam serviços de sistemas, digitalização e gestão de documentos.

A suspeita é de que o grupo utilizava contratos de serviços contábeis firmados sem licitação para entrar nas administrações municipais. Depois de conquistar espaço nas prefeituras, os envolvidos passariam a direcionar novas contratações para empresas ligadas ao mesmo esquema.

Os serviços contratados incluíam engenharia, digitalização de documentos e locação de veículos.

Durante a análise de arquivos digitais obtidos com autorização judicial, os investigadores encontraram processos licitatórios, pareceres jurídicos, minutas de contratos e até propostas editáveis de empresas que deveriam concorrer entre si. Para a polícia, o material reforça a suspeita de que algumas disputas eram manipuladas para favorecer empresas previamente escolhidas.

Polícia aponta mais de R$ 4 milhões em possíveis propinas

O dinheiro movimentado pelo grupo é uma das principais frentes da investigação.

Entre 2021 e 2025, as contas bancárias das empresas de contabilidade investigadas receberam mais de R$ 10,3 milhões, provenientes principalmente de prefeituras, câmaras municipais e fundos públicos.

Desse montante, mais de R$ 4 milhões teriam sido repassados a agentes públicos e outras pessoas envolvidas no esquema como pagamento de propinas, segundo a análise financeira da Polícia Civil.

Os investigadores suspeitam que os valores eram pagos em troca do favorecimento das empresas nas contratações públicas.

Um dos documentos encontrados chamou a atenção dos policiais: uma planilha de março de 2021 que, segundo a investigação, registrava pagamentos a agentes públicos. Os repasses eram identificados pelo próprio grupo como “voltas”.

Também foram encontrados indícios de lavagem de dinheiro. Entre as práticas investigadas estão saques e depósitos em espécie realizados de forma fracionada, além da utilização de empresas e terceiros para movimentar recursos e dificultar o rastreamento dos valores.

Justiça suspende contratos e impõe restrições a investigados

Além de autorizar as buscas, o Tribunal de Justiça determinou a suspensão de todos os contratos públicos vigentes mantidos com órgãos do Tocantins por 14 pessoas físicas e jurídicas ligadas ao grupo investigado.

Essas pessoas e empresas também ficaram proibidas de celebrar novos contratos com a administração pública.

Outros cinco investigados foram submetidos a medidas cautelares. Entre as restrições estão a proibição de manter contato entre si e com agentes públicos envolvidos na investigação, frequentar determinadas prefeituras e câmaras municipais e prestar serviços em contratações públicas no estado.

A Justiça autorizou ainda a quebra do sigilo bancário dos investigados, medida que permitirá aprofundar a análise das movimentações financeiras.

Investigação tramita no Tribunal de Justiça

A Operação ÔM3GA faz parte da Operação Protetor das Divisas, coordenada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Como há investigados com prerrogativa de foro, o procedimento tramita desde o início no Tribunal de Justiça do Tocantins.

Com o material apreendido nesta quarta-feira, a Polícia Civil pretende identificar outros possíveis beneficiários do esquema, esclarecer a participação de cada investigado e calcular os prejuízos eventualmente causados aos cofres públicos.

A investigação apura suspeitas de organização criminosa, fraude em licitações, peculato, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

As medidas cumpridas nesta fase têm caráter investigativo e não representam condenação dos envolvidos. O material divulgado até o momento também não informa se houve pedidos de prisão.