Sábado, 4 de abril de 2026
Estado

Jovem paraplégica se torna a primeira paciente do Tocantins a receber tratamento experimental contra lesão medular no HGP

Pesquisa é conduzida pela UFRJ e tratamento ainda está em fase experimental

Foto: Divulgação

Sindy Mirela Santos Silva tinha 21 anos e uma vida inteira pela frente quando um acidente de carro mudou tudo. Em 11 de janeiro, ela seguia de Novo Alegre para Combinado, no sudeste do Tocantins, quando a colisão provocou uma lesão na medula espinhal que resultou em paraplegia. Quase três meses depois, nesta quinta-feira (2), ela se tornou a primeira paciente do estado a receber a aplicação da polilaminina, uma substância experimental investigada por seu potencial na recuperação de lesões medulares.

O procedimento foi realizado no Hospital Geral de Palmas, onde Sindy está internada desde que foi transferida do Hospital Regional de Porto Nacional, após a complexidade do quadro exigir cuidados mais especializados. Nos meses que se seguiram, ela passou por cirurgias, reabilitação intensa e a difícil adaptação a uma nova realidade.

A polilaminina é produzida em laboratório a partir da laminina, uma proteína naturalmente presente no corpo humano com papel importante no crescimento e na organização das células do sistema nervoso. A pesquisa é conduzida pela cientista Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e ainda está em fase experimental. Os resultados preliminares apontam potencial de auxílio na regeneração dos tecidos nervosos e na preservação de células afetadas pelo trauma.

A aplicação foi feita no setor de hemodinâmica do HGP, com auxílio de imagem para guiar com precisão o local da injeção. Segundo o neurocirurgião Luiz Felipe Lobo Ferreira, responsável pelo procedimento, a técnica é minimamente invasiva. "A aplicação é feita com a paciente de lado, com sedação leve e sem necessidade de cortes. Utilizamos uma injeção diretamente na coluna, guiada por imagem, para alcançar exatamente a área da lesão na medula", explicou.

O médico pesquisador Arthur Luiz Freitas Forte, integrante da equipe da pesquisadora Tatiana Sampaio, foi cuidadoso ao definir as expectativas. "A expectativa não é falar em cura, mas em melhora da qualidade de vida, com possíveis ganhos de movimento, controle corporal e independência", afirmou. Ele também ressaltou que o tratamento é experimental e que o acesso não é automático. "O paciente precisa buscar a equipe responsável, estar ciente dos riscos e atender aos critérios definidos", completou.

A fisioterapeuta Wellen Cristine acompanhou Sindy desde a chegada ao hospital. "Quando a Sindy chegou, o quadro era grave. Ela tinha lesões no tórax, fraturas nas costelas e precisou, primeiro, de um cuidado intenso na parte respiratória. A reabilitação de pacientes com lesão na coluna é feita, muitas vezes, no leito, porque eles não podem sentar no início. É um processo longo, físico e emocional", relatou. Foi a própria equipe do hospital que orientou a família sobre a possibilidade de participar da pesquisa.

Há quase três meses em Palmas ao lado da filha, a mãe de Sindy, Ledjane Bezerra da Silva, resume o sentimento do dia. "Estou aqui há quase três meses com a minha filha e muito feliz por ela receber essa medicação. Eu espero que esse tratamento chegue a mais pacientes. Que ninguém desista do sonho de voltar a andar. Eu só tenho gratidão a Deus por tudo que está acontecendo", disse.

A própria Sindy traduziu o momento com uma imagem que diz tudo. "O meu sentimento hoje é de gratidão, primeiramente, a Deus. Ser a primeira do Tocantins eu acredito que vai abrir portas para outras pessoas também terem acesso à polilaminina. Para mim, foi como estar me afogando e passar um navio para me tirar de lá", afirmou.