Domingo, 25 de outubro de 2026
Política

Bispo de Araguaína e outros 46 bispos assinam carta que critica Flávio Bolsonaro, sem citá-lo, e alerta para ameaça à democracia

Documento divulgado às vésperas do 2º turno faz referências ao governo de Jair Bolsonaro e convoca católicos a votar no domingo (25)

Foto: Divulgação

O bispo da Diocese de Araguaína, Dom Giovane Pereira de Melo, está entre os 47 religiosos católicos que assinaram uma carta com críticas a uma das candidaturas à Presidência da República e alertas sobre os rumos da democracia brasileira. O documento foi divulgado nesta quinta-feira (22), a três dias do segundo turno entre o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL).

A manifestação reúne bispos, arcebispos e religiosos eméritos de 19 estados. Embora não mencione nominalmente nenhum dos presidenciáveis, o texto faz referências ao governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, pai de Flávio, e aponta divergências entre posições atribuídas à candidatura do senador e os ensinamentos sociais da Igreja Católica.

A participação de Dom Giovane coloca a Diocese de Araguaína entre as representadas na manifestação, que trata de temas como democracia, combate à pobreza, direitos dos trabalhadores, meio ambiente, acesso a armas e soberania nacional.

Em um dos trechos mais contundentes, os religiosos afirmam que o Brasil enfrenta uma situação que exige posicionamento dos católicos.

"O cenário é muito grave, pois uma das candidaturas ameaça frontalmente diversos pontos centrais da DSI, a existência da democracia, a soberania nacional e a prática do bem comum", diz a carta, em referência à Doutrina Social da Igreja.

Bispo de Araguaína participa de posicionamento nacional

A assinatura de Dom Giovane Pereira de Melo aparece ao lado das de lideranças religiosas de diferentes regiões do Brasil, incluindo bispos de dioceses da Amazônia, do Nordeste, do Sudeste e do Sul.

Intitulado "Carta de Bispos Católicos ao Povo de Deus diante do Segundo Turno das Eleições Presidenciais de 2026", o documento afirma que os eleitores devem avaliar as propostas dos candidatos a partir dos valores defendidos pela Igreja.

Os autores sustentam que a escolha presidencial envolve mais do que diferenças entre projetos políticos e pode representar mudanças profundas na condução do país.

"Não se trata apenas de uma escolha eleitoral, tantas vezes já praticada no Brasil, mas da possibilidade de uma mudança profunda nos rumos da nação, cujos exemplos na história do século XX deixaram cruéis e amargas lembranças", afirmam.

Carta questiona posições atribuídas a Flávio Bolsonaro

Entre as críticas, os bispos mencionam propostas relacionadas à flexibilização do acesso a armas e fazem referência direta ao governo do pai de um dos candidatos.

"Um dos candidatos promete liberar o acesso amplo às armas, como fez o seu pai em seu Governo", registra o documento.

Os signatários também contestam posições que atribuem à candidatura sobre direitos trabalhistas, programas sociais, proteção ambiental e relações do Brasil com os Estados Unidos.

Em outro trecho, defendem que o compromisso com os mais pobres e o respeito às instituições democráticas precisam orientar a decisão dos católicos.

A carta apresenta uma avaliação mais favorável da candidatura adversária, embora reconheça que ela também está sujeita a críticas.

O documento não declara expressamente apoio a Lula nem pede votos para ele pelo nome, mas as referências ao governo Bolsonaro e as críticas à candidatura de seu filho tornam identificável o alvo da manifestação.

As afirmações sobre propostas, condutas e riscos políticos representam posições dos religiosos que assinam a carta.

CNBB não assina documento como instituição

Apesar de reunir dezenas de autoridades eclesiásticas, a manifestação não representa um posicionamento oficial de todo o episcopado brasileiro.

Segundo dados da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgados em outubro, o país possui 498 bispos, dos quais 325 estão em atividade e 173 são eméritos.

Os 47 signatários correspondem a aproximadamente 9,4% desse total.

Procurada pelo g1, a CNBB reiterou sua manifestação institucional divulgada na quarta-feira (21), defendendo a Constituição, o Estado Democrático de Direito e o respeito aos resultados das eleições, sem se pronunciar especificamente sobre a carta.

"Reafirmamos a importância da defesa da Constituição, do Estado Democrático de Direito e do respeito aos resultados legítimos das urnas, expressão da liberdade de escolher os que governam. Encorajamos a participação consciente de todos neste segundo turno das eleições", afirmou a entidade.

A participação de Dom Giovane na carta, portanto, integra uma manifestação coletiva de seus signatários, distinta da mensagem institucional da CNBB.

Manifestação ocorre a três dias da eleição

A carta termina com um apelo para que os católicos compareçam às urnas no domingo (25), defendendo valores como democracia, direitos humanos e proteção às pessoas em situação de pobreza.

"Conclamamos a todos os católicos para que não deixem de exercer seu direito e votem no dia 25 de outubro, em defesa da democracia, dos valores humanitários, dos pobres e dos ensinamentos de nossa Igreja", concluem os religiosos.

O posicionamento ganha repercussão nacional na reta final de uma eleição em que Lula busca a reeleição e Flávio Bolsonaro disputa a Presidência pela primeira vez.

No Tocantins, a presença do bispo de Araguaína entre os signatários dá dimensão local a um debate que envolve religião, participação política e a decisão dos eleitores no segundo turno.


 

Confira a íntegra da carta assinada pelos 47 bispos

CARTA DE BISPOS CATÓLICOS AO POVO DE DEUS DIANTE DO SEGUNDO TURNO DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 2026.

22 de outubro de 2026

O Senhor Deus falou, quem não profetizará? (Am 3,8)

O papa Leão XIV, em sua encíclica Magnifica Humanitas, diz: "Há situações em que, para permanecermos humanos, temos de abandonar as hesitações e tomar posição. Há conflitos nos quais não é justo permanecer neutros nem é suficiente pensar ?não ser cúmplice?" (216).

Nós, bispos católicos de diversas dioceses do Brasil em comunhão com a CNBB, alinhados com a Mensagem do Conselho Permanente ao Povo Brasileiro, de 21/10/2026, acreditamos ser necessário e urgente, aplicarmos ainda mais em nossas preces pelo País e multiplicar mensagens para ajudar nos discernimentos, já que vivemos no Brasil uma dessas situações mencionadas pelo Papa Leão XIV, diante do cenário eleitoral dado, que exige tomar posição em nome do Santo Evangelho e da Doutrina Social da Igreja (DSI).

"O anúncio do Evangelho não pode esquecer a vida concreta dos povos" (Rerum Novarum, 15). O católico e a católica devem exercer a sua cidadania inspirados pela DSI e decidir o seu voto à luz de seus ensinamentos. Devem deixar "que o Evangelho [?] avalie as estruturas econômicas e políticas que, como viria a recordar São João Paulo II, podem tornar-se verdadeiras e próprias ?estruturas de pecado?, para que nenhuma pessoa e nenhum povo sejam vistos como prescindíveis nos processos de desenvolvimento (Magnifica Humanitas, 36)

Duas candidaturas estão colocadas. Independentemente de votarmos ou não, um dos candidatos será o próximo presidente do Brasil. Mas é preciso votar. Votem para fazer a diferença. O cenário é muito grave, pois uma das candidaturas ameaça frontalmente diversos pontos centrais da DSI, a existência da democracia, a soberania nacional e a prática do bem comum. Não se trata apenas de uma escolha eleitoral, tantas vezes já praticada no Brasil, mas da possibilidade de uma mudança profunda nos rumos da nação, cujos exemplos na história do século XX deixaram cruéis e amargas lembranças.

Queremos auxiliar os católicos em sua decisão, apontando alguns pontos de antagonismo entre o ensinamento social da Igreja e uma das candidaturas em disputa.

As mudanças tecnológicas do mundo atual "não podem ser avaliadas apenas em termos de eficiência, mas a partir da dignidade do trabalhador, do direito a uma remuneração suficiente e da efetiva possibilidade de participar na vida social" (Magnifica Humanitas, 37). A candidatura que sempre foi contra o fim da escala 6x1 e propunha pagar o salário por hora trabalhada, não reconhece a dignidade do trabalhador e poderá voltar a este tema.

"A promoção do bem comum nunca pode ser separada do respeito pelo direito dos povos a existir [?]. Qualquer tentativa ou projeto de eliminar ou subjugar uma nação é gravemente imoral e, por isso, inaceitável (Magnifica Humanitas, 64). Um dos candidatos promete submissão do Brasil aos Estados Unidos (EUA), fez parte de uma conspiração para taxar produtos brasileiros, defende a intervenção estrangeira em nossas eleições e promete entregar nossas terras raras à exploração dos EUA.

A exortação apostólica Dilexi Te (Eu te amei, sobre o amor para com os pobres) critica os que pensam que "seria melhor deixar [os pobres] na miséria e ensinar-lhes antes a trabalhar" e que "a liberdade do mercado levará naturalmente à solução do problema da pobreza" (114). O partido de um dos candidatos sempre foi publicamente contrário aos programas sociais e de combate à pobreza, por desconhecerem as causas da miséria no Brasil, mesmo que agora o seu candidato diga que vai continuar alguns programas sociais. Estão, portanto, em contradição com a evangélica opção preferencial pelos pobres, reafirmada nos principais documentos de nossa Igreja.

A DSI propõe o desarmamento e diz que "o enorme aumento das armas representa uma ameaça grave para a estabilidade e a paz" (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 508). Um dos candidatos promete liberar o acesso amplo às armas, como fez o seu pai em seu Governo.

O cuidado com a Ecologia Integral é hoje elemento central da DSI. A Laudato si? critica "as atitudes que barram os caminhos de solução" que "vão da negação do problema à indiferença" (14). Um dos candidatos não reconhece a crise climática, nega os problemas ecológicos e quer dar continuidade às políticas de devastação que caracterizaram o Governo de seu pai e a atuação de seu partido no Congresso. Lembremo-nos da "Lei da Devastação" (nº 15.190/2025) aprovada no ano passado.

"O discípulo de Cristo rejeita todo recurso [à tortura], de modo algum justificável" (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 404). Um dos candidatos é publicamente favorável à tortura e sua família fez homenagens a um dos maiores torturadores da ditadura brasileira, o general Brilhante Ustra, que matou muitas pessoas.

"A Igreja encara com simpatia o sistema da democracia [?]; ela não pode, portanto, favorecer a formação de grupos restritos de dirigentes, que usurpam o poder do Estado a favor dos seus interesses particulares ou dos objetivos ideológicos" (Centesimus Annus, 46). Um dos candidatos é filho do presidente que foi condenado e preso por atentar contra a democracia e segue suas ideias. Fez várias declarações de ameaça à ordem constitucional e, se eleito, governará com maioria absoluta no Congresso Nacional e no STF, criando as condições para uma usurpação do poder e submissão do país à sua ideologia.

Por outro lado, temos outra candidatura que, embora também esteja sujeita a críticas, sempre manifestou responsabilidade com os pobres e com a Casa Comum e atuou dentro dos limites da ordem democrática, respeitando a Constituição. Gostar ou não do atual Governo não pode ser razão para entregar o país nas mãos de quem manifesta tamanha contradição com os ensinamentos de nossa Igreja.

Diante desses e inúmeros outros elementos, não podemos nos manter neutros, a fim de que nossa consciência ou a história não nos condenem no futuro. Quem se calou diante das ameaças totalitárias que se concretizaram na Europa do século XX deixou uma herança vergonhosa para as gerações seguintes.

Conclamamos a todos os católicos para que não deixem de exercer seu direito e votem no dia 25 de outubro, em defesa da democracia, dos valores humanitários, dos pobres e dos ensinamentos de nossa Igreja.

Que Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, ilumine a mente de cada um e cada uma de nós.

Assinam:

Dom Adolfo Zon Pereira, SX, Bispo da Diocese do Alto Solimões AM

Dom Adriano Ciocca Vasino, Bispo Emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia MT

Dom Benedito Araújo, Diocese de Campo Maior PI

Dom Edmilson Tadeu Canavarros dos Santos, Bispo da Prelazia de Itacoatiara AM

Dom Edson Damian, Bispo Emérito de São Gabriel da Cachoeira AM

Dom Egidio Bisol, Bispo Emérito da Diocese de Afogados da Ingazeira PE

Dom Evaldo Carvalho dos Santos, Bispo da Diocese de Viana MA

Dom Eugênio Rixen, Bispo Emérito de Goiás

Dom Evaristo Pascoal Spengler, Bispo da Diocese de Roraima

Dom Flavio Giovenale, Bispo da Diocese de Cruzeiro do Sul AC

Dom Francisco Cota de Oliveira, Bispo da Diocese de Sete Lagoas MG

Dom Frei Pedro Cesário Palma OFMCap, Bispo de Jardim MS

Dom Frei Samuel Ferreira de Lima, OFM, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Manaus AM

Dom Geraldo dos Reis Maia, Bispo da Diocese de Araçuaí MG

Dom Giovane Pereira de Melo, Bispo de Araguaína TO

Dom Giuseppe Luigi Spiga, Bispo da Diocese de Grajaú MA

Dom Itacir Brassiani, Bispo da Diocese de Santa Cruz do Sul RS

Dom João Batista de Oliveira, Bispo da Diocese de Corumbá MS

Dom João Muniz Alves, OFM, Bispo da Diocese de Xingu-Altamira PA

Dom Joaquim Hudson de Souza Ribeiro, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Manaus AM

Dom Joel Maria dos Santos, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte MG

Dom José Albuquerque de Araújo, Diocese de Parintins AM

Dom José Ionilton Lisboa de Oliveira, SDV, Bispo Presidente da CPT Comissão Pastoral da Terra

Dom Jose Luiz Ferreira Salles, Bispo da Diocese de Pesqueira PE

Dom Jose Mario Stroeher, Bispo de Rio Grande/RS

Dom José Reginaldo Andrietta, Bispo da Diocese de Jales SP

Dom Lauro Sérgio Versiani Barbosa, Bispo da Diocese de Colatina ES

Dom Lucio Nicoletto, Bispo da Prelazia de São Felix do Araguaia MT

Dom Luiz Antonio Lopes Ricci, Bispo de Diocese de Itapetininga SP

Dom Luiz Fernando Lisboa, Arcebispo da Diocese de Cachoeiro do Itapemirim ES

Dom Luiz Gonzaga Fechio, Bispo da Diocese de Amparo SP

Dom Manoel João Francisco, Bispo Emérito da Diocese de Cornélio Procópio PR

Dom Mauro Montagnoli. Bispo Emérito de Ilhéus BA

Dom Nereudo Freire Henrique, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Olinda e Recife PE

Dom Norberto Foerster, Bispo da Diocese de Ji-Paraná RO

Dom Otair Nicoletti, Bispo da Diocese de Coxim MS

Dom Paolo Andreolli, Bispo da Diocese de Ponta de Pedras PA

Dom Paulo Mendes Peixoto, Arcebispo da Arquidiocese de Uberaba MG

Dom Pedro José Conti, Bispo Emérito de Macapá AP

Dom Raimundo Possidonio Carrera da Mata, Bispo da Diocese de Bragança do Pará

Dom Roque Paloschi, Arcebispo da Arquidiocese de Porto Velho RO

Dom Sebastião Lima Duarte, Bispo da Diocese de Caxias do Maranhão

Dom Silvio Guterres Dutra, Bispo da Diocese de Vacaria RS

Dom Vanthuy Neto, Bispo da Diocese de São Gabriel da Cachoeira AM

Dom Vicente de Paula Ferreira, Bispo da Diocese de Livramento de Nossa Senhora BA

Dom Zanoni Demettino Castro, Arcebispo da Arquidiocese de Feira de Santana BA

Dom Zenildo Lima da Silva, Bispo Auxiliar de Manaus AM